Base das Lajes - Ingleses e Americanos na Terceira

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O Desembarque dos Ingleses na Terceira




8 Outubro 1943 Angra do Heroísmo Desembarque dos Ingleses
8 Outubro 1943
Angra do Heroísmo
Desembarque dos Ingleses







Na madrugada de 8 de Outubro de 1943 os britânicos chegam ao largo de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira.


A população, primeiro a medo depois curiosa, dirigiu-se aos pontos sobranceiros à Baía.










8 Outubro 1943 Angra do Heroísmo Desembarque dos Ingleses
8 Outubro 1943
Angra do Heroísmo

Desembarque dos Ingleses



Após os primeiros contactos com terra, procedeu-se ao desembarque  no Porto das Pipas.








8 Outubro 1943 Angra do Heroísmo Desembarque dos Ingleses
8 Outubro 1943
 Porto das Pipas, Angra do Heroísmo


O desembarque no porto de Angra do Heroísmo não foi fácil devido a um temporal próprio da época de inverno nos Açores. Foram usadas barcaças de fundo chato para descarregar, tonelada por tonelada, secção por secção, todo o equipamento e abastecimentos necessários. 






Aviadores da RAF em marcha  sobre a ponte do Forte de São Sebastião
 Aviadores da RAF em marcha 
sobre a ponte do Forte de São Sebastião





O acampamento das Lajes ainda não estava construído, pelo que o quartel-general das tropas da RAF ficou instalado no Forte de S.Sebastião.







Ingleses na Terceira
 1943
Acampamento dos britânicos na Terceira
 




Com os 3000 militares vieram cerca de 20 000 toneladas de material e equipamentos que foram arrumadas ao longo do porto, para depois serem levadas para acampamentos improvisados. 








Ingleses na Terceira
 1943
Acampamento dos britânicos na Terceira
 




Foram instaladas tendas de campanha, muitas delas destruídas pelas intempéries usuais na ilha.









Alargamento da pista das Lajes.
1943
Início do alargamento da pista das Lajes.
Montagem das primeiras tendas




O transporte da vila para o Campo das Lajes teve de se efectuar com a ajuda de animais. 












Pista das Lajes - Revestimento da pista com chapas metálicas
Revestimento da pista com chapas metálicas





Iniciaram-se de imediato os trabalhos na pista revestindo-a com chapas metálicas. Estes trabalhos deram mão de obra a inúmeros trabalhadores portugueses.









A 9 de Novembro de 1943 aviões ingleses com base nos Açores afundam o seu primeiro submarino alemão.



A pista das Lajes, com os seus quase 2000 metros de grelha de aço, foi inaugurada a 15 de Dezembro de 1943.


Inauguração da pista das Lajes
Inauguração da pista das Lajes

A cerimónia incluiu uma bênção, presidida por três sacerdotes: um padre católico e dois pastores protestantes, um de rito anglicano e o outro de rito escocês. A fita foi cortada pelo Comandante Militar da Terceira, Brigadeiro Tamagnini Barbosa. 

Relembrou-se que tanto o Aeródromo como a soberania eram portugueses, e que apenas tinham sido feitas concessões em termo de base aos britânicos.

Após a inauguração, seguiu-se uma exibição de voo de um Boeing Fortress Mark II a baixa altitude e um chá, oferecido pelo Vice-marechal britânico Bromet.









A chegada dos Americanos às Lajes





Com a concessão das instalações da Base das Lajes aos ingleses, os americanos começam a insistir em compartilhá-las. A 1 de Dezembro de 1943, ingleses e americanos tinham chegado a um acordo para uma utilização conjunta da base. Salazar acedeu na presença de forças americanas mas exigiu que estas permaneçam sob comando britânico.


No dia 9 de janeiro de 1944  chega à Terceira o navio Abraham Lincoln com um grupo de 532 militares norte-americanos, pertencentes ao 96º Batalhão de Construções da Marinha e ao 928º Regimento de Engenharia da Força Aérea norte americana com 2500 toneladas de material para o alargamento do Aeródromo das Lajes. Desembarcaram apenas com o armamento individual que, logo após pisarem a Terceira, tiveram de entregar e seguiram depois para as Lajes desarmados,  surgindo aos olhos do Mundo  apenas como técnicos. 

Maio 1944
Vista aérea do Porto da Praia da Vitória





A 21 de fevereiro de 1944, o Comandante da Marinha dos EUA nos Açores solicitou a construção de um porto na Praia da Vitória, numa área muito acessível e com boas condições portuárias. 



As obras começaram de imediato, e este porto tornar-se-ia importante para o apoio aos depósitos de combustível americanos.











Os Estados Unidos pediram também a concessão de facilidades em Santa Maria e após um longo e difícil processo de negociações foi assinado o acordo dessa concessão a 28 de Novembro de 1944.




Cerimónia de entrega da Base das Lajes
pelos Ingleses à soberania Portuguesa



A 3 de Outubro de 1946 com o fim da II Guerra, procedeu-se numa cerimónia à descida do pavilhão inglês e ao hastear da bandeira nacional no aeródromo das Lages. 




No total a Royal Air Force realizou a partir da Base das Lajes 3 115 voos, detectou 38 submarinos e atacou 19, tendo protegido comboios aliados num raio de 700 milhas.




Os ingleses entregaram a base à soberania portuguesa e os americanos deixaram a Base de Santa Maria para se instalarem definitivamente na Base das Lajes onde permanecem ininterruptamente até hoje.


Consequências da presença estrangeira na Terceira 




O alargamento da pista das Lajes e a construção das instalações da base tiveram diversas consequências para a população local. 

Os terrenos outrora  chamados o "celeiro da Terceira", foram  destinados a estas instalações sendo os seus proprietários desapossados das suas terras, a troco de uma renda que lhes foi imposta e que consideravam injusta. Numa nota enviada ao Presidente do Conselho de Ministros pelo Governador Civil de Angra do Heroísmo, Dr. Cândido Forjaz, pode ler-se este descontentamento:
“A construção do aeródromo das Lajes veio desapossar das suas pequenas propriedades mais de duzentos proprietários hoje proletarizados. Ainda que lhes paguem a propriedade expropriada – eles não terão em que empregar o capital visto não haver, quasi não haver, propriedade disponível e os Bancos já não desejarem mais depósitos. São centos de pessoas arrancadas à terra com as naturais consequências de ordem social”

Todas as casas localizadas na área da pista e da base, foram demolidas e as famílias que aí residiam foram realojadas em duas novas aldeias entretanto construídas pelos ingleses: a Aldeia Nova do Juncal e a Aldeia Nova das Lajes.

Com a construção da Base, foram feitas pelos ingleses captações de água nas nascentes que causaram problemas no abastecimento de água às populações.

Foram restringidos os acessos nas vias aos cidadãos que ainda habitavam nas imediações da base.

O aumento populacional provocado pela chegada dos estrangeiros, provocou dificuldades no abastecimento de carne, arroz, bacalhau e sobretudo de cereais. O peixe atingiu preços incomportáveis. Gerou-se uma tendência de produzir apenas para as forças estrangeiras já que a população local não tinha o mesmo poder de compra. Produções caseiras como ovos, galinhas e  frutas, eram direccionadas exclusivamente para fornecer a base, propiciando o enriquecimento de alguns comerciantes e o desafogo temporário de alguns habitantes locais.

O mercado de trabalho aumentou, visto que eram recrutados trabalhadores locais para serviços e obras necessárias na base. O nível salarial destes trabalhadores era muito apetecível pelo que muitos largaram os seus trabalhos na agricultura e na pesca em busca de melhores condições de vida. Aumentou também exponencialmente a prostituição e os furtos.

Os estrangeiros trouxeram maneiras de estar e de viver diferentes. Tinham tanto que até os seus desperdícios eram aproveitados pela população local, como a reciclagem das latas das conservas que passou a ser taxada por ser rentável.

O convívio entre as duas comunidades foi enriquecedor e alguns casamentos ocorreram entre militares estrangeiros e portuguesas da Terceira.

O bem estar da população aumentou de uma forma efémera visto que, com a conclusão dos trabalhos da base surgiu o desemprego e uma grave crise no ano de 1945.
Havia dinheiro nos bancos mas não havia capacidade empresarial nem desenvolvimento económico para o investir.

É inegável que a base estrangeira nas Lajes modificou a vida na ilha Terceira, porque a ilha centrou-se na vida da base. Não houve outros projectos nem investimentos de interesse público.
Após a saída dos ingleses e 6 de Outubro de 1946 com o fim da Guerra, a base continuou americana como fronteira de segurança no meridiano 26ºW e a ilha continuou centrada na base.

Cândido Forjaz diria:
“... das três Ilhas principais do Arquipélago, é esta a única que tem condições para grande centro de tráfego aéreo internacional, que vai tomar depois da guerra o volume que tudo deixa prever”
mais um sonho baseado na base.



Fotos retiradas de : Historia dos Açores

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Os Açores na Segunda Guerra Mundial (1942-1943)

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Anos de 1942 e 1943

Os interesses ingleses nos Açores

A situação da Europa em 01 Janeiro 1942
(imagem daqui)

A Grã-Bretanha e os EUA chamavam à zona dos Açores  "Azores Gap", Black Hole" ou "Black Pit" por ser uma zona onde os submarinos alemães "U-boats" atacavam sistematicamente os comboios de navios aliados  vindos dos Estados Unidos para a Europa e Norte de África.
Só nos primeiros cinco meses de 1943, os Aliados perderam 365 navios.
Os Açores apresentavam-se pois numa localização estratégica da máxima importância para ambas as facções em conflito. 

Com a Batalha do Atlântico,  os Açores ganham enorme relevância para os Aliados na luta contra os "U-boats" do III Reich.

Logo no início de 1942, mais propriamente a 29 de Janeiro, Humberto Delgado parte para Londres com informações sobre as condições meteorológicas das ilhas açorianas. Essas informações levam os ingleses a desistir da intenção de utilizar hidro-aviões nas águas do arquipélago.
Assim, em Março, Vintras está de novo nos Açores desta vez para estudar o prolongamento da pista das Lajes, na ilha Terceira

Esta pista passaria a chamar-se  “Aeródromo das Lagens” por determinação de Salazar a 13 de Junho de 1942.

16 de Junho de 1943, o embaixador da Grã-Bretanha em Portugal, Sir Ronald Campbell comunica a Salazar que, na sua opinião e na do Governo Britânico e à luz da situação causada pelo avanço dos aliados, o perigo de uma invasão alemã da Península estava ultrapassado.
Solicita, invocando a Aliança Luso-Britânica, uma colaboração mais directa de Portugal no esforço de guerra inglês, ao permitir o uso de facilidades nas ilhas portuguesas do Atlântico, para o emprego de aviões e navios de superfície.
Salazar cede. Sente-se na obrigação de cumprir as cláusulas da velha aliança e apercebe-se que chegara aos limites da resistência embora uma quebra da neutralidade portuguesa pudesse acarretar sérias consequências.


1940
Angra do Heroísmo
(foto daqui

A 5 de Julho tem lugar a primeira reunião com a delegação britânica, onde se especificam os pontos do pedido inglês:

1. Uso livre do porto de Angra.
2. Acomodações para pessoal da Royal Navy: 135 homens em Ponta Delgada, Angra e Horta.
3. Armazenagem em Ponta Delgada de cerca de 1000 cargas de profundidade, munições diversas e mantimentos.
4. Facilidades para a actuação de quatro traineiras equipadas para a luta anti-submarina desde Ponta Delgada e de quatro caça-minas e traineiras desde a Horta.
5. Facilidades para a actuação de um ou mais rebocadores de alto mar desde Ponta Delgada e/ou Horta.
6. Instalação de postos de comunicações.
7. Utilização das pistas das Lajes e de Rabo de Peixe.
8. Facilidades para o reabastecimento de hidro-aviões em Ponta Delgada e na Horta.



1940
Ponta Delgada
(foto daqui)

Salazar acede mas reclama algumas garantias para Portugal:

a) compromisso assumido pelo Governo Britânico de prestar ao Governo português todo o apoio e auxílio militar no caso de ataque;
b) compromisso da elaboração de um plano de cooperação britânica na defesa de Portugal, para o que uma delegação portuguesa seria imediatamente enviada para o Reino Unido; 
c) fornecimento de material de guerra e de pessoal técnico.
d) protecção aos navios mercantes portugueses e a revisão dos acordos comercial e fornecimentos-compras e facilidades de transportes, destinadas a resolver as dificuldades do nosso abastecimento público, designadamente de alimentação e combustível.

A 23 de Julho envia uma nota ao embaixador da Grã-Bretanha em Lisboa, Sir Ronald Campbell onde diz que espera que as forças britânicas se retirem logo após o fim da guerra e que respeitem a integridade nacional. Acrescenta ainda que não permitiria uma presença americana nos Açores nem a de um só soldado inglês no Continente.

No dia 04 de Agosto de 1942, as Forças de Aeronáutica nos Açores passam a constituir a Base Aérea N.°4, no Aeródromo de  Santana  em  S.  Miguel,  e  a  Base Aérea    N.° 5, no Aeródromo das Lagens na Terceira.

Finalmente a 17 de Agosto de 1943 firma-se o acordo com a Inglaterra, onde era concedida à Grã-Bretanha o uso de facilidades nos Açores, nomeadamente  a utilização da base das Lajes, de uma base de emergência em Rabo de Peixe e do acesso aos portos de Angra, Ponta Delgada e Horta.

data fixada para a entrada em vigor do mesmo, seria a de 8 de Outubro do mesmo ano.
Portugal recebe em troca, entre outro material, seis esquadrilhas de aviões de caça Hurricane.
A defesa dos Açores ficava da responsabilidade de Portugal, à excepção das imediações da base das Lajes.

Poucos dias antes da entrada em vigor do acordo todos os cidadãos dos países do Eixo foram retirados dos Açores.

A 1 de Outubro de 1943 deu-se inicio à chamada operação "Alamity". Um comboio de navios da Marinha Inglesa parte de Liverpool com destino à Ilha Terceira nos Açores. É constituído pelo navio de transporte "Franconia" com 3000 homens do Exército, Armada e Força Aérea, escoltado pelos "destroyers" HMS Volunteer, Whitehall e Havelock acompanhados pelo porta aviões HMS FENCER  e os "destroyers" HMS Inconstant, Viscount, Wrestller,  Burza e Garland.


A cedência das bases foi oficialmente anunciada em Londres e Lisboa a 12 de Outubro de 1943

A Royal Air Force (RAF) passa a designar o campo das Lajes como RAF Station Lajes.


(1943),
 "Salazar discursando na Assembleia Nacional",
CasaComum.org,
Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114559 (2015-3-12)



A 26 de Novembro de 1943, Salazar discursa na Assembleia Nacional sobre o acordo com Inglaterra.










(anterior)


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A Defesa dos Açores na Segunda Guerra Mundial

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A Defesa dos Açores



Até meados de 1941, os Açores estão praticamente indefesos.

Ernesto Machado, nomeado Comandante Militar dos Açores em 1939, foi instruído nesse mesmo ano pelo Subsecretário de Estado da Guerra para realizar a mudança do Comando Militar dos Açores da ilha Terceira (Palácio dos Capitães Generais) para São Miguel, e simultaneamente decidir sobre o reforço da Defesa das Ilhas.

Esse reforço, que durou de Outubro de 1939 a Julho de 1940, basicamente consistiu na instalação das baterias de costa, em Ponta Delgada (Bateria da Castanheira – Grotinha, Arrifes) e na Horta (Bateria de Costa da Ponta da Espalamaca e do Monte da Guia) e ao reforço da guarda das áreas mais críticas (estações de cabos, algumas praias, entre outras).

A partir de Maio de 1940, com a queda da França e com os pedidos insistentes da Inglaterra no sentido de reforçar a defesa nos Açores, decide-se enviar um batalhão expedicionário. O Batalhão de Infantaria nº.66 embarca para os Açores em Outubro de 1940.

Os Açores não têm cobertura aérea, embora uma pequena força de aviões de reconhecimento com base no arquipélago, fosse o bastante para aumentar em muito a eficácia do dispositivo de defesa. Efectivamente, os únicos hidroaviões que existem no país não podem permanecer nas ilhas por não haverem instalações adequadas.

A partir de Abril de 1941, o Exército reforça significativamente o seu contingente nas ilhas. 

Num relatório de 4 de Maio de 1941, a relevância das ilhas a defender fica definida:


S. Miguel é a ilha mais importante sob o ponto de vista estratégico; 
a Terceira é de grande importância, devido ao campo de aterragem; 
a ilha do Faial deve também ser defendida.

"Deverão preparar-se urgentemente dois aeródromos-base, um em cada uma das ilhas Terceira e de S. Miguel e, se possível, um campo de recurso na Ilha do Faial. Na ilha Terceira, o local preferido é o das Lagens, próximo de Praia da Vitória, e sobre o qual há já estudos do Conselho Nacional do Ar tendo em vista a sua utilização por linhas aéreas transatlânticas. Por agora interessa apenas um aeródromo de campanha, sem necessidade de grandes trabalhos de preparação. [...] 

A Marinha da Guerra e a Força Aérea acentuam a responsabilidade da vigilância das ilhas.
O patrulhamento aéreo é essencial na obtenção rápida de informação de modo a evitar qualquer ofensiva surpresa pelo que é sugerida a concentração urgente de maior numero de aviões possível nas ilhas.



Navio Lima


Em Maio de 1941, são enviadas para os Açores unidades antiaéreas no navio Lima e tropas de engenharia no navio Carvalho Araújo.







(1941), "Humberto Delgado e outros aviadores portugueses na Base das Lajes",
 CasaComum.org,
Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114159 (2015-2-5)

O então Major Humberto Delgado é encarregado de acompanhar os trabalhos da implementação da pista nas Lajes. 
Abre-se uma pista de terra batida e erguem-se alguns armazéns. 





1941 
Construção do hangar pela marinha de guerra portuguesa 
para a instalação do Centro de Aviação Naval em Ponta Delgada



A  Marinha da Guerra e a Força Aérea empenham-se na defesa dos portos. 
Em  Junho de 1941, com o desenvolvimento da base naval,  é criado o Centro de Aviação Naval de Ponta Delgada e nomeado Comandante Militar dos Açores o Brigadeiro Marques Godinho.





O sistema de comunicações usado pelos guardas costeiros até aqui é quase exclusivamente o telefone, pelo que neste mesmo ano, os Açores recebem o Posto Radiotelegráfico do Centro de Aviação Naval de Ponta Delgada.  



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A Aviação - Esquadrilhas expedicionárias





Gladiator
Navio "Mirandela" no
Porto de Lisboa
A 4 de Junho de 1941, parte de Lisboa com destino aos Açores o cargueiro "Mirandela".
A sua carga é composta por duas esquadrilhas equipadas com aviões Gladiator, pessoal militar como oficiais, pilotos, mecânicos, radiotelegrafistas, enfermeiros, sargentos e soldados do serviço geral, rádio e condutores, viaturas, munições e combustíveis.



Transporte dos Junkers JU.52 de Ponta
Delgada para o Aeródromo de Sant'ana




A Esquadrilha de Caça Expedicionária nº1 , composta por 5 Junkers JU.52 e 15 Gladiator desembarca em S. Miguel a 8 de Junho, com destino ao Aeródromo Militar  de Sant'ana, em Rabo de Peixe.




12 Junho 1941
Desembarque em Angra do Heroísmo

A Esquadrilha de Caça Expedicionária nº2  composta por 15 Gladiator desembarca no Cais da Alfândega em Angra do Heroísmo, ilha Terceira na manhã do dia 12 de Junho. Desfila pelo centro da cidade e dirige-se ao Castelo de S. João Baptista onde fica aquartelada. 






Construção da primeira pista paralela
ao Engenho do Álcool
 e perpendicular à Serra
(Lajes) 
Gladiators na Achada
Os aviões seguem encaixotados para o Aeródromo das Lajes. São montados nas Lajes do Calvário, junto ao Engenho do Álcool, onde se localizava a pista, que tinha acabado de ser concluída. Como esta ainda não apresentava as melhores condições os Gladiators são temporariamente deslocados para o Aeródromo da Achada onde passam a operar.




É também necessário instalar a esquadrilha, proceder à montagem dos aparelhos, organizar a logística, a manutenção e a defesa das instalações. As obras nas Lajes ficam concluídas a 26 de Agosto de 1941.



Em Setembro de 1941, o Comando Militar dos Açores dirige já uma guarnição distribuída por três ilhas, com uma presença simbólica nas outras. A área que mais soldados expedicionários recebeu, cerca de 26.500 continentais para reforçar as guarnições locais já mobilizadas para a formação de novas unidades, totalizava um número compreendido entre os 30.000 a 32.000 homens.
O grosso das forças está em S. Miguel, sede de três regimentos de infantaria (RI 18, 21, 22), companhias de metralhadoras, artilharia antiaérea e de campanha e as baterias de defesa de costa de Ponta Delgada.
O RI 17 está na Terceira e o RI 20 no Faial, ambas as ilhas reforçadas com unidades de artilharia de campanha, antiaérea e auxiliares.

Assim, de Abril a Setembro de 1941, criou-se nas ilhas um dispositivo de defesa que segundo o governo português "estava em condições de se opor eficazmente a uma tentativa de ataque à sua soberania nas ilhas portuguesas do Atlântico".

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Os Açores na Segunda Guerra Mundial (1941)

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Ano de 1941




No início de 1941, Portugal não tem condições para se defender de um ataque ao seu território. 

Na eventualidade de um ataque por parte da Alemanha, Salazar vira-se para a velha Aliada em busca de assistência. Portugal propõe à Inglaterra que sejam iniciadas conversações com vista a aperfeiçoar o seu plano de defesa. Se Portugal possuísse militares treinados,  armamento e uma moderna aviação e se a Inglaterra se comprometesse a defender o território em caso de invasão, talvez isso fosse o suficiente para dissuadir Hitler de um ataque.

Os ingleses não pretendem intervir na península embora saibam que Portugal possui um exército com apenas uma divisão operacional, mal treinada e mal armada, sem qualquer hipótese de oferecer resistência aos alemães. 
Fazem promessas vagas de envio de armamento e insistem  que é «essencial»  defender os Açores 
Pedem o envio de técnicos à paisana para estudar as instalações das ilhas (Açores, Madeira e Cabo Verde). Salazar recusa alegando que a sua presença seria detectada e poderia ser considerada uma provocação. 
Salazar não acredita na vitória dos Ingleses na guerra e tenta jogar com a neutralidade. 


A situação da Europa em 01 Janeiro 1941
(foto daqui)
Só em meados de Abril, Portugal informa a Inglaterra que os planos elaborados entre os dois países para uma eventual defesa de Portugal continental não eram viáveis. 
A Inglaterra propõe então a retirada do governo Português para os Açores, sob escolta da Marinha Britânica,  mal os Alemães passassem os Pirenéus, onde se estabeleceria a capital.
Ora isto  implicaria  preparar todas as infra-estruturas necessárias para assegurar a defesa das ilhas e a Inglaterra comprometia-se a enviar armamento para a defesa antiaérea e no auxilio na construção e ampliação de pistas de aviação do arquipélago. 
O que a Inglaterra não diz é que tem o intuito de poder utilizar essas infra-estruturas no caso de perder Gibraltar.
Salazar discorda. A retirada do governo para os Açores só se justificaria após um ataque alemão a Portugal e argumenta que a entrada dos alemães em Espanha ou mesmo a tomada de Gibraltar não implica a perda de neutralidade portuguesa.

No entanto, começa a ser dada a devida importância à defesa dos Açores,  com a criação do Comando de Defesa Marítima dos Açores, do Centro de Aviação Naval de Ponta Delgada e o envio de forças expedicionárias para as ilhas.

Sir Winston L. Spencer-Churchill

Impaciente com as recusas e delongas de Salazar, a  Inglaterra elabora planos de ocupação dos Açores (Operação "Brisk") e a 23 de Abril de 1941, Churchill manda preparar dois batalhões para ocupar os Açores e Cabo Verde  e convida Roosevelt a enviar uma esquadra americana  aos Açores para ajudar no patrulhamento. Roosevelt recusa dizendo que não é possível o envio da esquadra, mas os EUA apoiam a ocupação militar dos arquipélagos, embora seja necessário fornecer «garantias» de retirada no fim do conflito, pois os Açores fazem parte do «hemisfério ocidental» e a «opinião pública americana» é muito sensível aos acontecimentos nessa zona"



No início de Maio de 1941, após as vitórias alemãs na Grécia e na Cirenaica, teme-se a queda da França de Vichy para o lado do Eixo e a consequente perda do norte de África. 
Roosevelt ordena que três navios de guerra e alguns aviões deixem Pearl Harbour e se juntem à esquadra americana no Atlântico e engloba as ilhas espanholas e portuguesas na doutrina Monroe (que protege os interesses americanos permitindo-lhes uma intervenção na Europa).

A 22 de Maio, Roosevelt ordena que se prepare a Marinha para ocupar os Açores, com um pré-aviso de 30 dias. A operação recebe o nome de código «Gray».

Sem antes consultar Churchill acerca do arquipélago português, a 27 de Maio de 1941, o presidente americano faz o célebre discurso onde afirma que "a guerra se aproxima do hemisfério ocidental e que os EUA têm de controlar o Atlântico".
O principal receio dos EUA é o das possessões portuguesas caírem nas mãos dos alemães. Com a posse dos Açores e de Cabo Verde, os alemães controlariam as principais rotas comercias do Sul do Atlântico e, no caso de aí estabeleceram bases militares, constituiriam uma ameaça ao hemisfério ocidental. Assim, os EUA não podiam deixar de considerar qualquer acção alemã nas ilhas portuguesas como o início das hostilidades contra o seu próprio território. O presidente diz ainda que as tropas americanas estão a ser colocadas em posições estratégicas e que não hesitariam em recorrer à força, se os seus interesses e defesa estivessem a ser colocados em risco. Nunca se refere porém à soberania portuguesa sobre as ilhas.

Salazar protesta veementemente  e dirige uma nota para Inglaterra:
“O Governo de Sua Majestade está perfeitamente informado do que respeita à defesa das ilhas portuguesas do Atlântico e muito especialmente do arquipélago dos Açores. (...) o Governo Português não se tem poupado a nenhuns esforços para que as ilhas possam efectivamente resistir a um eventual ataque alemão, ao menos durante o tempo que seria necessário à presença naquelas águas da esquadra britânica e da prestação do seu auxílio. Enviando tropas, armando-as convenientemente, organizando a defesa por todos os meios aos seu alcance, solicitando, até, do Governo Britânico o fornecimento imediato dos elementos aconselháveis para tornar ainda mais perfeita a defesa, o Governo Português tem a consciência de estar a respeitar a neutralidade da Nação e a plena soberania sobre os seus territórios, sem deixar de ter, ao mesmo tempo, em conta o interesse britânico (...).O Governo Português, que não tem compromissos políticos com o governo de Washington, não pode deixar de considerar qualquer atitude sua e desconhecimento da soberania portuguesa nas ilhas atlânticas, ainda que baseada na presunção de tencionar ocupá-las uma potência inimiga, como acto de agressão ao território português com as lógicas reacções que o caso exigiria”.

Em fins de Maio, o Ministro da Guerra, Santos Costa, encarrega o então major Humberto Delgado de fazer um levantamento topográfico completo dos Açores para que a RAF planeasse uma base aérea. Delgado  faz uma série de viagens a Londres levando mapas e dados sobre os Açores.


31 de Maio Salazar comunica ao Secretário de Estado Americano que uma ocupação do seu país do arquipélago poderia desencadear uma invasão alemã da Península Ibérica. Em resposta recebe uma nota do departamento de estado norte-americano.
Nela diz-se que:
"Os EUA não têm qualquer intenção agressiva e que a referência às ilhas no discurso do Presidente incidia meramente sobre o perigo da sua ocupação por uma potência inimiga (...) O Governo dos Estados Unidos (...) não nutre nenhumas intenções agressivas contra a soberania ou integridade territorial de qualquer país.(...) Ao referir-se às ilhas do Atlântico, foi intenção do Presidente indicar os perigos que resultariam para este hemisfério se as mesmas ilhas viessem a cair sob o domínio ou ocupação das forças que seguem uma política de conquista e de domínio mundiais. A importância estratégica destas ilhas, devido à sua posição geográfica, foi salientada pelo Presidente exclusivamente em termos do seu valor potencial do ponto de vista de um ataque contra este hemisfério”.

É então que Churchill transmite a Roosevelt que com o decorrer favorável das conversações entre Portugal e a Grã-Bretanha onde fica estabelecido que a defesa dos Açores será reforçada, possivelmente será possível chegar a um acordo diplomático a curto prazo para a ocupação do arquipélago. “Acrescenta, porém: «Independentemente da decisão de Salazar, temos de obter o controle das ilhas, no que a cooperação dos EUA será inestimável".


22 de Junho, a Alemanha invade a URSS e a  Inglaterra revê os planos para o Atlântico. A partir de Julho, são colocadas forças de desembarque de prevenção para quando a Rússia estiver derrotada (em Setembro segundo se espera) se desencadearem três operações em simultâneo: «Springboard» para a Madeira, «Thruster» para os Açores e «Puma» para as Canárias.


A 8 de Julho , Salazar recebe uma carta do presidente Roosevelt  a garantir a integridade das ilhas:
"Meu caro Doutor Salazar.
FRANKLIN D. ROOSEVELT
Escrevo-lhe esta carta (...) para pôr fim a certos mal-entendidos que lamentavelmente têm surgido nas últimas semanas entre os nossos dois Governos. (...) Este Governo encara com a maior satisfação os passos que já foram e que estão a ser tomados pelo seu Governo para reforçar a defesa dos Açores (...) de modo a tornar qualquer ataque surpresa por parte da Alemanha, ou por potências cooperantes com a Alemanha, menos provável de sucesso. É preciso acrescentar que, por ser de vital importância para os Estados Unidos que a soberania Portuguesa  nos Açores e nas outras possessões portuguesas permaneça intacta, este Governo estará preparado para ajudar as autoridades de Portugal na defesa desses bens contra qualquer ameaça de agressão por parte da Alemanha, ou de poderes sensíveis à Alemanha, caso o seu Governo expresse a convicção de que esse tipo de agressão é iminente ou o desejo que sejam tomadas as devidas providências. Todas essas medidas, é claro, seriam tomadas em pleno reconhecimento dos direitos soberanos de Portugal e com categóricas garantias de que quaisquer forças americanas enviadas para possessões portuguesas seriam retiradas imediatamente após o término da guerra.(...)

Passados 8 dias, Salazar responde:
Sr. Presidente. 
Foi-me particularmente grato receber a carta de V. Ex.ª e tomar conhecimento, (...), dos sentimentos dos Estados Unidos e do seu Governo para com Portugal e da sua exacta posição quanto a territórios portugueses do Atlântico nas suas relações com a segurança da América do Norte.
(1951-1960), "António de Oliveira Salazar",
 
CasaComum.org, imagem daqui

Recusei-me sempre a crer que em quaisquer declarações de V. Ex.ª se devesse ver necessariamente o desconhecimento dos direitos soberanos de Portugal ou a velada intenção de os violar em determinadas circunstâncias. (...) A tese de que a defesa americana depende de certos pontos estratégicos repetidamente aludidos sem referência a um domínio estrangeiro que tinha de ser respeitado prestava-se (...) à pior interpretação.(...) as nações devem manter-se fiéis ao seu ideal e não podem na sua acção política violar os mesmos princípios que se dizem defender ou por que estão prontas a bater-se. 
Embora as autoridades militares portuguesas não partilhassem dos receios de um ataque aos Açores por forças alemãs,(...) por prudência e para garantia da segurança da Inglaterra nossa aliada secular, o Governo não se tem poupado a esforços ou despesas para conservar as ilhas do arquipélago e também as de Cabo Verde em condições de defesa eficiente. Nós cremos que as forças e material ali já acumulados, e ainda algum material de aviação e antiaéreo que o Governo Inglês se prontificou a fornecer imediatamente, porão as ilhas fora das possibilidades de contra elas se fazer um ataque com êxito, dispostos como estamos a fazer respeitar a soberania portuguesa e a nossa neutralidade. Esta segurança a tem a Inglaterra e espontaneamente a demos ao Brasil na parte em que o nosso efectivo sobre as ilhas atlânticas pudesse interessar à sua defesa. (...).
Estou, é evidente, a considerar neste momento apenas a permanência da situação neutral que Portugal adoptou desde o começo do conflito europeu; se, porém, esta viesse a ser alterada por uma violação da sua soberania, a situação daí resultante teria de ser examinada a outra luz e definida a nova posição. Não quero desde já prever esse futuro, mas meço bem todo o alcance e valor da declaração de V. Ex.ª e, dada a intimidade das nossas relações com o Brasil, eu creio que Portugal poderia abertamente contar também em tal emergência com a sua solidariedade e todo o seu apoio".

Salazar não se mostra absolutamente convencido, e a sua já desconfiança em relação aos Americanos aumenta a partir daqui.

Visita do Presidente Carmona aos Açores
26/Julho/1941 - Ponta Delgada
 


É então que Salazar pede ao Presidente Carmona para se deslocar aos Açores de modo a ali afirmar a soberania portuguesa. Carmona durante a visita profere a célebre frase "Aqui é Portugal", claramente indicativa da linha política nacional.






Em Agosto de 1941, Franco envia para a frente russa a famosa divisão azul, para combater ao lado dos alemães em nome da luta anti comunista. Churchill e Roosevelt assumem que Espanha abandona a neutralidade espanhola, e a hipótese da ocupação dos Açores é novamente abordada na célebre conferência do Atlântico.

No último trimestre de 1941, as conversações de Estado-Maior entre Portugueses e Ingleses já tinham como ponto assente as medidas a tomar no caso de um ataque alemão a Portugal. Várias infra-estruturas têm de ser aprontadas: 
“(...) dois aeródromos-base, um em cada uma das ilhas Terceira e de S.Miguel e, se possível, um campo de recurso na Ilha do Faial
Na ilha Terceira, o local preferido é o das Lagens, próximo de Praia da Vitória, e sobre o qual há já estudos do Conselho Nacional do Ar tendo em vista a sua utilização por linhas aéreas transatlânticas. Por agora interessa apenas um aeródromo de campanha, sem necessidade de grandes trabalhos de preparação. [...] 
Sendo possível, e para uma segunda fase, conviria ainda que o campo da Achada, na mesma ilha Terceira, fosse preparado como campo de recurso, tendo em vista a vigilância aérea da cidade de Angra e do seu Porto. 
Na ilha de S. Miguel calcula-se haver possibilidade de preparar um aeródromo na região de Ribeira Grande nas condições desejadas.
Quanto à ilha do Faial, os estudos na carta dão como possível a preparação de um campo de recurso na região de Feteira.(...)

Após o ataque japonês a Pearl Harbour a 7 de Dezembro, os Estados Unidos declaram guerra ao Japão e viram as suas atenções para o Pacífico. A questão dos Açores foi delegada para um plano secundário. 

O major Humberto Delgado é nomeado representante de Portugal nas negociações anglo-portuguesas e é-lhe atribuída a missão de recolher informações, levantamento topográfico, meteorológico, condições de desembarque e manutenção de uma possível Base Aliada nos Açores a ser utilizada pela Royal Air Force.
No mesmo dia 10 de Dezembro, Delgado e um oficial da Royal Air Force de nome Vintras, partem para os Açores para estudar a possibilidade da instalação de bases britânicas no arquipélago. 
(1941), "Humberto Delgado e outros aviadores portugueses na Base das Lajes",
 
CasaComum.org,
 Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114159 (2015-2-27)

No fim do ano de 1941, Churchill defendia junto dos americanos que não deviam ser tomadas quaisquer iniciativas em relação às ilhas atlânticas a não ser que a Península Ibérica fosse invadida e a Espanha permitisse a ocupação germânica. 
Os britânicos asseguravam ao presidente Roosevelt que a amizade luso-britânica era «firme» e que «as defesas das ilhas tinham sido aumentadas ao máximo, sendo que apenas uma questão de até que Portugal se juntasse aos aliados». 
Com base nestas garantias, o plano norte-americano para a ocupação dos Açores foi temporariamente posto de lado.




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